Pensentires em Prosas, Versos e Sonhares.

Voar junto e dar ASAS aos Sonhos, amplia possibilidades, de viver-se intensamente.

Textos



Renato Prieto, MEMÓRIAS que choram


Lembranças
Dos caminhos
Até a prontidão!

Aceitou
O Chamamento
E na Arte se revelou!

Um cortina se abre...

Consciências se iluminam!





NEU* - Ensaio

"Religião não se discute" (Preconceito?)





Depoimento do  Livro - Por que me tornei espírita?  -  Mauro Judice


Você não imagina o que se vê de estranho quando se representa a peça "Além da vida"
Os carros se enfileiravam na entrada do Sesc (Serviços Social do Comércio) no bairro de Madureira, cidade do Rio de Janeiro. No interior do prédio, a pessoas se acumulavam à porta do teatro. A temperatura estava com a indefinição de quando não sabemos se tiramos ou se deixamos o pulover no corpo. Porém, havia certa ansiedade quente o pairando no ar, pois já estava quase na hora de começar a apresentação da peça “Além da vida”, baseada no livro homônimo psicografado por Francisco Cândido Xavier. Positivamente, havia uma agitação diferente, algumas pessoas com mediunidade mais avançada já haviam identificado espíritos ao derredor, outras mais sensíveis foram capazes de vê-los e ouvi-los. Dava a impressão de que alguma coisa iria acontecer... Ao soar o toque de entrada, o público tomou a platéia e, pouco depois, seguiu-se o primeiro ato do espetáculo espírita.
O ator Renato Prieto, antes mesmo de entrar em cena, sentiu no vazio as energias estranhas que logo identificou serem emanadas de espíritos, ocupando todos os lugares, nos camarins, no palco, na entrada do teatro... determinados em assistir ao desenrolar da peça. Embora estivesse concentradíssimo em seu personagem para melhor defender sua atuação, o ator percebeu também as vibrações do conjunto do público, como uma brisa cálida invadindo as dependências da casa de espetáculos. Artista experiente, não tivera antes a mesma sensação em outros trabalhos de tema espiritual.
Renato procurava não se desconcentrar, ainda mais que já havia muito era espírita e tinha perfeitos conhecimentos dos fenômenos dos quais se via cercado. No entanto, ao percorrer os ambientes, via estranhas luzes surgirem à sua frente. Eram diminutos raios de luz perdurando curto espaço de tempo, como estrelas cadentes; eram pontos luminosos que não iam além do tamanho de uma moeda, pipocando bem diante dele, nos corredores do teatro, no palco, em todos os lugares; sombras a lhe rasparem o canto da visão, para quando houvessem seduzido seu olhar já logo desaparecer, sem se deixar ver de chapa, a olhos cheios. Porém, ainda mais impressionante era o que se passava com ele na coxia (pequeno corredor atrás do cenário), ao transitar de um lado para outro por exigência das novas cenas. Nessa passagem, de vez em quando, ele literalmente esbarrava com espíritos, quer dizer, sentia como se houvesse dado encontrões com almas do outro mundo.
Como se costuma explicar, esses seres desencarnados, embora estejam em outro plano, vibram em freqüência mais baixa e tornam-se mais densos e por essa razão, ficam mais propícios à tangibilidade. De início, Renato Prieto pensou tratar-se de algum colega e inadvertidamente vinha em direção contrária, pois, na correria de lado a outro da coxia, nem sempre se podia divisar um corpo fundido na massa escura. Porém, rápido se dava conta de estar absolutamente sozinho! Em outras ocasiões, Renato Prieto me afirmou categoricamente que teve a aflitiva experiência de trespassar espíritos. Sim, exatamente isso, por mais incrível que possa parecer! Ele se via varando uma espécie de campo magnético, numa sensação realmente indescritível, por não encontrar paralelo em sua vida.
Contudo, Renato Prieto já estava bastante acostumado com todos esses fantásticos fenômenos. Afinal, ele convivia com eles desde o início das apresentações do Além da vida, isso havia mais de dez anos. Chegava mesmo a levar a coisa de forma muito natural, como era de seu estilo. Já passava e ia pedindo desculpas em quem esbarrasse, fosse colega de trabalho, fosse espírito desencarnado. Quem o surpreendesse nesse momento certamente o consideraria louco, correndo pela coxia pedindo desculpas no escuro, sem haver ninguém ao seu lado!
Enfim, tais envolvimentos espirituais, que fariam qualquer um sentir frio na espinha, já não o alteravam mais. Ele continuava compenetrado em sua atuação até o espetáculo chegar aos instantes finais. Mais uma vez, ele deixou o palco preparando-se para voltar na última cena, ao lado de todos os outros atores. Aí, parado em algum canto da coxia, seus olhos se perderam numa fresta de luz foragida do palco, e seus pensamentos o levaram para longe dali. Talvez pensasse em seus primeiros contatos com o plano espiritual.
Normal. Foi exatamente esta a palavra usada por ele para definir como o Espiritismo entrou em sua vida, de uma forma normal. Não deixa de ser até um pouco engraçado observar que alguém procura esta Doutrina com a naturalidade de quem abre a gela­deira a fim de achar algo para comer, enquanto outros se vêem praticamente arrastados a ela. E isso fica muito claro aqui, nos depoimentos deste livro, como em tantos casos mais que se nos deparam em nossa vida. 0 ator, e também diretor de teatro, Renato Prieto, faz parte do reduzidíssimo grupo de pessoas que, ao mínimo contato, já se vincula à prática espiritual de forma segura e sem as oscilações provocadas pela cisma em relação aos conceitos.
E, ao pisar pela primeira vez em um Centro Espírita, ele já encarou a reunião dessa maneira normal a que se referia. Contava com dez ou onze anos, quando uma amiga o levou para assistir aos trabalhos em comunhão com o plano oculto. Ficou tranqüilo como se desde o colo houvesse acompanhado a mãe em rodas espíritas. Mas, não, nunca havia pisado em locais como aquele e, no entanto, não atribuía nenhum corte divisório, rígido ou mesmo drástico, entre o mundo material e o plano dos espíritos desencarnados. Considerava-os como um só, coerentemente um só, apenas em dimensões diferentes. Mas o fato de ele julgar como perfeitamente naturais essas ocorrências, vistas pela maioria das pessoas como esdrúxulas e ameaçadoras, não diminuiu seu entusiasmo de conhecê-as mais profundamente. E, assim, com sua fé inata, acrescida de sua enorme curiosidade, o pequeno Renato se interessava por todas as coisas de natureza mística. Era Centro Espírita, era terreiro de umbanda, de candomblé e mais o que aparecesse. Realmente, não tinha nenhum preconceito.
Quando chegou aos 20 anos, porém, iria começar a definir sua linha de trabalho espiritual por meio de um rato um tanto quanto intrigante ‑ o primeiro de uma série que o iria envolver nos poderes do mundo invisível. Já na época, ele era um ator profissional e morava num apartamento no Rio de Janeiro. Estava para pegar sua mala mal descansada, pois faria mais uma viagern ao interior do estado, com o objetivo de atuar numa peça teatral em temporada de quatro dias. Antes, porém, resolveu depositar o lixo de sua residência na lixeira de seu andar. Era um pequeno cômodo que possuía ao fundo uma gaveta de bom tamanho, onde se entulhavam as sobras dos domicílios e onde exatamente Renato se deparou com dois livros dispensados pelo vizinho. Como ele era um leitor voraz, não se incomodou de tirá-los do meio do lixo para ler seus títulos. Eram, na verdade, dois livros espíritas, ambos psicografados pelo maior médium brasileiro, Francisco Cândido Xavier. Tratava-se das obras "E a vida continua" e "No mundo maior".
0 achado foi verdadeiramente providencial, pois Renato dispôs de muito tempo vago em sua viagem, aproveitando-se do retiro interiorano para ler com tranqüilidade. Nos momentos em que o deixavam esquecido no quarto, longe dos palcos, ele devorou os dois livros. Que novos horizontes se lhe abriram naquelas páginas! Como eram interessantes em suas abordagens sobre os dois mundos, o espiritual e o material, e o constante mecanismo de interação entre eles! Impressionado, considerou as explicações dessas duas obras cheias, construídas com uma lógica admirável e perturbadoramente perfeita, de um bom senso sem igual, conectadas com tudo aquilo em que ele acreditava, como se fossem a liga de suas convicções num todo coerente, sem deixar nenhuma lacuna ou dúvida em suspenso. Renato sentia-se agitar dentro dos limites do seu corpo, Os livros produziram nele o efeito daquelas verdades que nos impõem uma queda dentro de nós mesmos, causando-nos momentâneo desequilíbrio vertiginoso.
“Uma coincidência e depois outra, o plano oculto tecia lentamente meu destino”
Ao voltar ao Rio de Janeiro, o ator estava irrequieto e, em sua cabeça, fervilhavam dúvidas. Como se fosse enleado em uma trama do plano invisível (e não era?), nessa cidade, o destino iria sinalizar para ele novos contatos com a espiritualidade, como um farol em mar aberto. Quando se dirigia à sua casa, ouviu de passagem alguém pronunciar as palavras "Allan Kardec" em meio a uma frase perdida. E o estranho nome, embora já o tivesse ouvido em outras ocasiões, permaneceu fortemente gravado, batendo em sua memória. Allan Kardec, Allan Kardec, Allan Kardec... Ora, por que cargas d'água se apegava em tal pensamento? Ele se perguntava. Mas logo receberia a surpreendente resposta. De volta à rotina de seu apartamento, Renato Prieto sentou-se no sofá defronte à estante dos livros, quando seus olhos perscrutadores se incomodaram com algo destoante do conjunto. Um dos livros alinhados estava encapado com papel de pão... Papel de pão? Ele ficou inquieto, pois todos eles lhe pertenciam e não se lembrava de ter um livro encapado daquela maneira. Ao desprensá-lo da estante, ele levou um baque ao ler o título inscrito na primeira página, como se ela houvesse se aproximado e recuado em direção ao seu rosto numa fração de segundos. Era o Livro dos Espíritos, escrito pelo erudito francês Allan Kardec.
Foi amor à primeira lida. Renato Prieto encontrou na obra soluções para suas dúvidas essenciais quanto à razão da existência do homem, verificando coincidirem muitas crenças pessoais com as orientações encontradas na obra. Muitas de suas convicções eram, portanto, reiteradas pela Doutrina Espírita e isso o fazia sentir-se mais amparado, qual o andarilho do deserto que vê subitamente as areias palmilhadas. E, a partir daí, ele leu toda a obra da chamada Codificação Espírita do mesmo autor, bem como outras sobre a mesma matéria, em sua maioria psicografada por grandes médiuns, como Chico Xavier. Contudo, ainda não havia sido explicado como 0 Livro dos Espíritos tinha parado em sua estante. "Será que os espíritos materializaram esta obra aqui, em meu apartamento?" questionava-se o ator, intrigadíssimo. No entanto, a explicação era um pouco mais simples, embora não se possa justificar o estranho fato de aparecer justamente quando o nome de Kardec andava raspando no fluxo de seus pensamentos. 0 livro fora esquecido por uma amiga do ator, uma jornalista. E Renato soube disso porque ela, três ou quatro meses depois, ligou para saber se havia esquecido a obra quando lhe fizera uma visita. De fato, havia. Mas o ator não reparou no objeto, já que sua faxineira encontrou o livro primeiro e o guardou na estante.
Diferentemente de outras pessoas, Renato Prieto apurava os sentidos para esses pequenos, mas significativos, sinais. Ele compreendia que, de alguma forma, lhe era oferecido um caminho ou um sentido para sua existência, o qual ele não se negava a seguir; como fiel cavaleiro, se ajoelhava diante de seu destino ‑ movido, é claro, por sua vontade, única e exclusivamente. Para ele, os espectros da espiritualidade eram apenas uma cortina que separava os homens de um mundo melhor. E estava disposto a conhecer a vida detrás da cortina.
Assim, continuamente movido por singular força interior ‑ uma alegria suave, embora um pouco ansiada, como sentimos quando estamos próximos de desembarcar em um país desconhecido e muito atraente ele não deixou de se aprofundar mais e mais no assunto, procurando vivenciar novas experiências com os trabalhos espirituais, bem como com pessoas a eles ligadas.
Foi assim que, por meio de uma dessas pessoas, outra vez ele viu fecharem à sua volta novas ocorrências que o levariam definitiva e extraordinariamente ao contato maior com a espiritual idade, fazendo-no sentir as passagens de sua vida como contas tecidas por um único fio. Um amigo do ator e pai-de-santo (como se denominam os sacerdotes de certos cultos afro-brasileiros), conhecido por seus trabalhos em terreiro de candomblé, havia convidado o ator a participar de uma festa em sua casa. Era uma homenagem a um dos integrantes do Centro que, em linhas gerais, passou por uma das etapas iniciais do ritual, uma espécie de batismo.
Desse modo, as pessoas iam chegando à reunião e, para surpresa daqueles que julgam serem tais trabalhos apenas freqüentados por indivíduos simples e pouco esclarecidos, logo se viam pessoas de excelente nível sócio-cultural, bem como personalidades reconhecidas pela fama. Sentado respeitosamente em seu lugar, Renato Prieto movia seus olhos atentos para toda aquela gente, pensando que a maioria participava dos trabalhos de candomblé e, no entanto, pessoas absolutamente normais. Imaginava-as em meio ao culto, cobertas por todos aqueles penduricalhos acompanhavam tais roupas, como os colares de contas coloridas e mais toda aquela indumentária de origem marcadamente africana. Imaginava os médiuns trans­figurados nas entidades a quem se deixariam conduzir para efeito dos trabalhos. Homens curvados sobre simples banquinhos dando cachimbadas caprichosas seus "pitos" rudimentares: os pretos-velhos; outros, empeitados e empertigados, fazendo poses marciais e subservientemente a postos: bugres; outros, ainda, untados como índios, com fisionomia severa e um tocado assustadora, fumando seus grossos charutos, e braços cruzados: as entidades de comando, os chefes de linha. E, lembrava o ator, as personalidades que havia conhecido, pessoas céticas que anteriormente menosprezavam tais cultos, encontravam-se rodopiando como piões em meio ao terreiro, ou prostradas devido às poderosíssimas forças do plano oculto. Como explica tudo isso? Crendice, auto-sugestão, pura força mental folclorizada pelo imaginário humano? Fosse qual fosse a explicação, não se podia negar que ali havia pessoas comuns, equilibradas, bastante sensatas. Algumas ocupando cargos profissionais de alta responsabilidade, sujeitos acostumados a tomar decisões que influenciavam a vida de dezenas, centenas, milhares até, de outros indivíduos. Estariam todos loucos? E quem teria respaldo o bastante para graduar a sanidade de alguém (metido em trabalhos espiritualistas) sem recair em presunção?
“O meu primeiro conflito com o Centro onde estou hoje foi incrível”
Desperto de seus pensamentos, Renato Prieto voltou a atenção à festa, quando foi abordado por alguém, uma mulher, um rosto familiar, uma amiga. Parada à sua frente, fazia-lhe de supetão uma estranha pergunta:
- 0 que você está fazendo aqui?!
- Vim assistir à festa.
Mas ela insistia com a mesma pergunta: "0 que está fazendo aqui?", deixando-o sem compreender o sentido da indagação. "Já disse, vim assistir à festa!", enquanto ela não parecia satisfeita com a resposta.
- Você tem cara de um lugar que eu conheço! - Disse ela, olhando no meio dos olhos dele, com um misterioso e significativo sorriso. Ele ainda sem entender bem o que ela queria dizer. - É isso, Renato. Eu conheço um Centro Kardecista que tem a sua cara!
De um instante, o ator compreendeu que a amiga julgava-o mais afinado, mais identificado, com a linha espírita codificada por Allan Kardec. Não era contrária às práticas religiosas do candomblé - caso contrário, não estaria na festa - mas sua intuição lhe dizia que seu amigo Renato se situaria melhor em trabalhos de âmbito kardecista. 0 ator ficou surpreso com as pressagiadas palavras da amiga, enquanto a ouvia falar brevemente do Centro Espírita que ela lhe recomendava. Explicava a localização do mesmo, situado na região central do Rio de Janeiro, na avenida Presidente Getúlio Vargas, realizado às quartas-feiras, às dezenove horas, e mais tais e tais indicações do local, enquanto Renato Prieto não tinha bem certo se iria se lembrar daquelas referências todas para achar o lugar. Em todo caso, a recomendação não lhe fugiu da cabeça.
Renato voltou para casa e ficou algum tempo meditando sobre o rumo que tomavam as coisas. De um momento, seu coração era assaltado por uma paridade de emoções. Por um lado, alegrava-se por a sensação de haver sempre alguém velando por s passos, pois, analisando com vagar, verificava que experiências por ele vividas se ligavam uma a uma, m todo coerente, como se houvesse por trás verdadeiros artífices ocultos a criá-las, embora estivessem bem disfarçadas com a casualidade (a casualidade, a artimanha de Deus). E essas experiências dão, sem faltas em rebarbas, aquilo que o espírito humano precisa pode assimilar num determinado momento de sua existência, em sua trajetória em direção ao aperfeiçoamento. Porém, ele, vislumbrando um sentido para a vida, vislumbrava um compromisso, uma vez que para seguir qualquer sentido é preciso esforço e responsabilidade; ou não seguir nada e viver à deriva, à mercê de ventos e correntezas.
Algum tempo se passou depois disso e Renato Prieto ainda não havia topado com o lugar indicado por sua amiga. 0 destino ainda não estava satisfeito e, efetivamente, viria com mais uma das suas.
Um dia, estava o ator entretido em fazer compras na região central do Rio de Janeiro, na rua Uruguaiana, mais precisamente, um tanto esquecido das horas, quando, dando por si, encontrou-se defronte à avenida Presidente Vargas. Seus olhos foram como que puxados para a visão de um grande relógio de rua, estampando altivo e judicioso as horas da entrada da noite: 18h30. "Ah", pensou, "já é tarde e é péssimo voltar para casa a essa hora, do rush. Súbito, perpassou-lhe na tela mental a imagem de sua amiga, ao seu lado, na festa e se lembrou de estar a pouca distância do Centro por ela referido. "Você tem a cara de um lugar que eu conheço."
Renato Prieto ficou atônito ao se dar conta de que era quarta-feira e muito próximo da hora da realização da reunião espírita. "E, Deus, eu estou aqui, do lado!", pensou o ator, ainda mais estupefato ao atinar que havia se dirigido involuntariamente para a avenida Presidente Vargas, onde se localizava o Centro. "Não, tudo isso é incrível! Será que eles estão me ... !" No entanto, não sabia ao certo se iria rememorar todo o desenho do percurso que a amiga lhe explicara tão minuciosamente. De fato, foram muitas as indicações e a avenida Presidente Vargas era enorme. Porém, ele não estava com ânimo para enfrentar o desgaste do tráfego a fim de voltar para casa. Resolveu, portanto, tentar ir até o Centro Kardecista. Mesmo porque, àquela altura, ele já estava curiosíssimo para conhecer o lugar o qual a amiga se apressava em considerar apropriado para ele.
Mas, coisa estranha, sua memória ia conseguindo recuperar uma e depois outra e, enfim, todas as referências. Tudo indicava mesmo que ali algo iria acontecer com ele. Não teve de serpentear muito pelas calçadas para se ver diante do prédio descrito pela amiga, o qual hospedava a reunião promovida pelos espíritas. Mas Renato, surpreso com o fato de o prédio ser de natureza comercial, chegou mesmo a desconfiar se havia acertado o trajeto. Porém, agora que o haviam estimulado, ele não queria voltar mais. Desejava conhecer o local, saber o que se destinava a fazer ao lado dos kardecistas, que tipo de mediunidade desenvolveria. Um pouco mais e deu de frente com o porteiro do prédio de quem recebeu orientação para chegar no Centro. Subiu até o quarto andar e, enfim, após atravessar um corredor imenso, achou a sala comercial número 409.”... a cara de um lugar que eu conheço!"
- Qual o seu problema? - Perguntou-lhe uma mulher à entrada do estabelecimento, ocupada em atender os visitantes.
Renato olhou para ela e, após hesitar um instante, afirmou não ter nenhum problema, observando que a resposta criou certa suspensão de assunto, levemente tensa, pois, de fato, era pouco comum uma pessoa procurar Centros Espíritas sem apresentar nenhum problema. Assim, apressou-se em explicar melhor a sua vinda.
- Tenho alguns questionamentos, algumas dúvidas, gostaria de conhecer melhor os trabalhos...
Mal podiam imaginar os dois que, a partir desse primeiro contato, se estabeleceriam fortes vínculos de afeição e amizade entre eles. Ela era uma radialista da rádio espírita Rio de Janeiro (AM). Depois disso, Renato Prieto nunca mais deixou os trabalhos do Centro pelo menos, até o dia desta entrevista - identificando-se muito com a lógica kardecista ao longo de muitos anos, ao lado de outros companheiros.
Renato Prieto não precisou ser arrastado para a espiritualidade, pois a espiritualidade já estava nele. Embora tivesse passado por experiências singulares, há homens que vivenciaram contatos sobrenaturais muito mais espetaculares e, no entanto, não acreditaram na existência dos espíritos. Há outros que acreditaram somente após muito sofrimento e, com meneios de cabeça, acabaram afirmando: "Se tivesse acreditado antes!" Porém, não se trata de crer ou não nos espíritos. 0 homem deve ser livre para ter suas próprias convicções, sejam elas quais forem, contanto que não negue a si mesmo o aprofundamento de novos conhecimentos por estar limitado por idéias preconcebidas, conhecimentos esses que bem podem ajudá-lo a viver uma existência melhor. E Renato Prieto, ao sentir que a espiritualidade acenava para ele, não opôs resistência ao sutil chamamento. De exclusiva vontade, quis se aprofundar na Doutrina. De forma simples, espontânea, tranqüila, nela se encontrou. Verdadeiramente.
De repente, Renato retornou de suas memórias e se lembrou, até com certo susto, que estava em meio à apresentação da peça Além da vida, ou melhor, no final, pois já era chegado o fim do último ato. Depois de breve silêncio, as luzes dos holofotes se enfeixaram em direção ao palco, quando os atores entraram todos e se postaram à frente do público entusiasmado.
Renato Prieto também se adiantou. Seus olhos umedecidos caíram na platéia, toda ela de pé, vibrante. E o ator recebeu de toda a multidão os aplausos. Palmas para Renato.
FONTE: Depoimento - Livro porque me tornei espírita - Renato Prieto
renatoprieto.wordpress.com/tag/renato-prieto/




“Religião não se DISCUTE” (Preconceito?)


Por que não? Por ser um tema polêmico? Por que nos fará refletir valores diferentes dos incorporados por nós? Ou é o “bendito” preconceito religioso disfarçado de respeito às diferenças? Não estará a intolerância fechando portas e reforçando estigmas?

Enlouqueci? Não! São apenas questionamentos nascidos após leitura do depoimento de Renato Prieto do livro Porque me tornei espírita(12). Mas ele não fala de preconceito religioso alguém poderá contra-argumentar. Não, ele não cita o preconceito!

Prieto, com sensibilidade que lhe é própria, deixa nas entrelinhas de seu depoimento, um convite, para quem não tem enraizado em si, o preconceito. Pois, apenas as mentes “libertas” atenderiam ao convite para se conhecer o projeto que ele desenvolve junto com o “invisível”.

Como se perceber a presença do preconceito religioso? Já que o preconceito começa na “linguagem” (Religião não se discute), transfere-se para a atitude e aparecem os níveis de afastamento. Surge o ato de evitar; a discriminação e a segregação (1, 2).

A religião é uma forma de preservar a identidade. Ela pode sofrer transformação parcial, incorporando elementos de outras religiões. Isto aconteceu com a Umbanda e o Candomblé, que fazem hoje parte da cultura brasileira. Sabemos que Gilberto Gil, compositor, ministro na área da cultura, possui profundo respeito pelas religiões afro-brasileiras. É ele quem nos adverte: "Se eu quiser falar com Deus, tenho que calar a voz. Tenho que encontrar a paz".

Monteiro - em Deus não Sobe em Palanque (3) - alerta: "no fundamentalismo religioso e político residem os maiores perigos. Isto porque os seus líderes procuram fundamentar-se apenas em algumas partes ou interpretações convenientes, geralmente de suas doutrinas religiosas ou idéias políticas de modo exacerbado, alimentando o fanatismo. E podemos constatar no mundo atual que o fundamentalismo está sempre aliado à intolerância e ao desrespeito ao cidadão, pois seus fomentadores, na tentativa de conseguirem seus objetivos, passam por cima da ética e da moral sem nenhuma cerimônia".

Almeida (4) lembra que a mídia tem sido amplamente utilizada pelas religiões com o intuito de arrebanhar mais fiéis e de levar a espiritualidade a pessoas que não possam ir às igrejas, sinagogas, templos e etc. Entretanto, o espetáculo de religiosidade e de amor ao próximo vem se transformando num circo de horrores, onde os ataques às outras religiões são marca comum. Isto extrapola o direito de manifestação religiosa. Em nome da liberdade de expressão, as garantias constitucionais estão sendo distorcidas. Impossível negar a influência da mídia. (5, 6)


A tentativa de transformar as religiões afro-brasileiras em "seitas diabólicas" cria um estigma. Este ato favorece o preconceito e constitui ofensa ao princípio constitucional da dignidade da pessoa humana.
Com o estigma, surge o ato de evitar, como ocorreu com a integrante da Casa Legislativa Municipal no Rio de Janeiro que afastou uma imagem. A vereadora mandou retirar, da sala por ela ocupada, o retrato do deputado Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, sob o fundamento de que era “evangélica” e não poderia ter em “sua” sala o retrato de um “espírita”. (2, 8)

O Brasil é país laico e o Estado não interfere nem mesmo na liberdade de descrença (4, 10, 11) dizendo que "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei,


A conquista constitucional da liberdade religiosa é verdadeira consagração de maturidade de um povo. É verdadeiro desdobramento da liberdade de pensamento e manifestação. O constrangimento feito de modo a conduzir à renúncia de uma fé representa, dentre outros, desrespeito à diversidade espiritual.(4)

Vejamos novamente o artigo (3) "Deus Não Sobe em Palanque": "Como o nosso país está contextualizado dentro de uma sociedade Cristã, não podemos esquecer que Jesus cumpriu a sua missão sem necessidade de portarias ou decretos, e não fundou nenhum partido político para exercê-la. Mesmo assim, com essa prudente forma de agir, acabou morrendo na cruz, devido à ambição política de Judas, a pretexto de acelerar a vitória do Evangelho".

Enfatizamos, até os direitos fundamentais devem sofrer "restrições" quando ultrapassem e colidam, ainda que aparentemente, com outros direitos fundamentais. O que está faltando? Precisamos relembrar Pasteur (9).

"Não se considerem os únicos donos da verdade e do conhecimento, pois um diploma não faz o cientista. Somente assim poderão cumprir sua missão, ser úteis ao próximo. E façam tudo com amor, pois será um dia esplêndido aquele em que, dos progressos da ciência, participará também o coração”. Pasteur repetiu que "pouca ciência afasta o homem de Deus e que os verdadeiros cientistas acabam dele se aproximando". A ignorância religiosa afasta o homem de Deus (que é Amor) e da tolerância.(9)


Quando desenvolvemos o intelecto somos capazes de saber se uma ação é boa ou má, mas a escolha do caminho a tomar depende do desenvolvimento de outro domínio (afetivo). As duas asas simbólicas já são bem conhecidas. Sem uma delas, sociedade alguma poderá voar, atingir níveis de consciência mais altos, e ser considerada evoluída.

Impossível não lembrar as palavras de Bacurau enfatizadas pelo Secretário Nacional do Morhan. (8) "O amor ainda é o melhor remédio para todos os males do mundo desde que seja traduzido em trabalho, em humildade, em ética, em compromisso, em justiça".

O verdadeiro religioso não propõe a conversão à força. A obrigação de conversão sustentada pela doutrina da Igreja católica é moral, e, mesmo quando traduzida em normas positivadas em seu corpo canônico, nunca pode gerar a quebra da sadia tolerância aos cultos que dela divergem e que não causam transtorno à sociedade e ao Estado (10).

Se a intolerância à minoria é ruim a intolerância à maioria é perigosa, O grande desafio é iluminar consciências.

Através da arte de Prieto, a oportunidade para se dialogar com as diferenças se materializa. No palco “vozes sussurradas” alertam para a importância do amor e do estreitamento das relações, fazem refletir sobre a vida e a nossa condição de ser espiritual em processo de evolução. A VIDA não termina no túmulo.




Referências


1. PRECONCEITO – Formiga, LCD. - http://www.jornaldosespiritos.com/2007.3/col49.31.htm
2. O Poder das Palavras, no Princípio era o Verbo.
http://www.saci.org.br/
http://www.morhan.org.br/http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo554.htm
3. Deus não sobe em palanque. Gerson Simões Monteiro. Rádio Rio de Janeiro. Presidente da Fundação Cristã-Espírita Cultural Paulo de Tarso (FUNTARSO). Articulista do Jornal Extra, assinando a coluna “Em nome de Deus”
http://www.radioriodejaneiro.am.br/web/
4. Almeida, Dayse Coelho. Demonização das religiões afro-brasileiras. Jus Navigandi, Teresina, a. 9, n. 551, 9 jan. 2005.
http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=6155
5.A influência da mídia. A sedução de Pocotó
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/neurj/a-influencia-da-midia.html
http://www.superip.com.br/~jbraz/
6. Cenas de sexo e violência na TV. Reformador (FEB), 116(2027): 45-46, fev, 1998.
http://www.humildescomjesus.hpg.ig.com.br/cenas_de_sexo_e_violencia_na_tv.htm
7. O Retrato de Bezerra e a Aristocracia intelecto-Moral (Ética e Terceiro milênio). Revista Internacional de Espiritismo, LXXVI (4): 181-182, 2001.
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/neurj/retrato-de-bezerra.html
8. Vieira, M. O Morhan na ALERJ: de Uma Identidade Perversa (Leproso) à "Celebridade".
http://www.morhan.org.br/
9. Ciência com Amor. Revista Fraternidade, Lisboa, Pt, 422 (agosto/setembro): 227-229.
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/neurj/ciencia-com-amor.html
10. Brodbeck, Rafael Vitola. Apreciação da Constitucionalidade dos Feriados Religiosos Católicos em Face do Princípio do Estado Laico na Carta Política do Brasil. Jus Navigandi, Teresina, a. 8, n.462, 12 out. 2004.
http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=5551
11. Sob Deus. Laico, Mas Não Ateu.
http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo1091.html
12. Porque me tornei espírita - Prieto, Renato – renatoprieto.wordpress.com/tag/renato-prieto/


Imagens - Blog de Renato Prieto e Google  




LEIA mais
Links Espíritas/NEU*

http://juli.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1987995

* Núcleo Espírita Universitário






 
Juli Lima e Luiz Carlos Formiga
Enviado por Juli Lima em 14/01/2010
Alterado em 10/10/2025


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